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Lupus in Fabula

 

Uma de minhas imagens favoritas de Chapeuzinho Vermelho é a de um artista contemporâneo chamado Manuel Augusto Dischinger Moura[i]. O que mais me atrai nessa imagem é o contraste entre a ferocidade do lobo e o enfrentamento cauteloso da menina. A chuva adiciona mais um elemento agressivo à cena  mas, mesmo assim, não vemos Chapeuzinho Vermelho em fuga. Ela encara o monstro de olhos verdes com a calma e a naturalidade que, talvez, possam salvar-lhe a vida. O lobo, representado como uma figura bestial, traz toda a carga simbólica da morte. Não há como fingir que não notamos sua presença, no entanto, temos nossa vida contida em uma cesta de doces e uma mochila para carregar. É possível que nessa versão imagética, esse seja apenas um breve encontro, ou talvez a menina fuja, ou quem sabe a fera a carregue para sua toca, mas o que já se sabe há muito tempo, é que o lobo odeia meninas de vermelho. Na verdade, ele as teme, pois são a antítese de sua presença: o medo, a destruição e a amargura contidos em sua figura feroz perdem a força diante do viço e do sopro de vida trazidos por uma menina pré-adolescente.

Mas como esse encontro se deu? E que desfecho esperamos dele?  Há sempre uma razão para a escolha do caminho da floresta. E qual razão levou uma das personagens mais queridas e conhecidas da cultura ocidental a fazê-lo? Por que a menina da capa vermelha decidiu seguir o caminho mais difícil e assustador?

Para Charles Perrault[ii], folclorista francês do final do século XVII, foi por desobediência e tolice. E para tanto, sua punição foi dolorosa e fatal.

Segundo Terri Windling[iii], no entanto,  antes do registro de Perrault já circulava, desde a Idade Média, na França rural, uma versão muito parecida em sua estrutura com contos antigos do oriente, mas que na campanha francesa se chamava “ O Conto da Avó”.  Nessa versão, a protagonista não usa uma capa ou capuz vermelho – isso foi adicionado por Perrault-,  nem pede ajuda a um caçador – como na versão dos Irmãos Grimm. O lobo, no Conto da Avó é, na verdade, um lobisomem (bzou).  A menina conversa com o lobisomem no caminho para a casa da avó e, ao chegar lá, após as clássicas perguntas sobre a aparência da suposta avó, o lobisomem a chama a deitar-se na cama com ele. Percebendo a farsa, a menina inventa uma desculpa para ter de sair da casa e foge.

O fascínio e o medo que o lobo/ lobisomem exerce sobre o imaginário ocidental deve-se muito à convivência em nada pacífica entre moradores de aldeias muito próximas às florestas e as matilhas que as rondavam. O lobo sendo um animal selvagem e feroz e, muitas vezes atacando na calada da noite, passou a simbolizar o desconhecido, o que nos tira da vida do dia-a-dia, o que mexe com nosso lado animal, enfim, a morte.

Em muitos lugares da França medieval e em outros países da Europa, havia o “lobo do milho”, que era a representação animalesca, uma alegoria, do fim da colheita. Segundo Frazer[iv], as crianças eram alertadas a não ir ao campo enquanto a colheita não terminasse, sob pena de que “o lobo da colheita” as pegasse. Em outros lugares, um homem ou uma mulher eram escolhidos para dar o “golpe final” no lobo da colheita e a partir daí, personificá-lo pelo período de um ano, isto é, até a próxima colheita em que outro homem ou mulher tomariam seu lugar. A personificação da morte por um dos membros da comunidade aliviaria, de certa forma, seu peso avassalador. Fazendo uso da alegoria, as comunidades campestres medievais conviviam com seus “lobos”, fossem eles uma lavoura vazia e a ansiedade de que a próxima fosse suficiente, ou até a morte física de seus membros, “ceifados” da vida pelo golpe final da fera.  De uma coisa tinham certeza: o encontro com o lobo era inevitável.

Em “O Heroi de Mil Faces”, Joseph Campbell[v] diz que o que leva o herói a atender o “chamado da aventura” é a aparição de um “arauto”, ou “portador da força do destino”: “ Típico das circunstâncias do chamado são a floresta escura, a grande árvore, o riacho murmurante, e a terrível, subestimada aparição do portador da força do destino.” (tradução da autora).[vi]

Tal arauto, ou portador, traz consigo a promessa de algo valioso ou diferente, o que leva o herói a querer segui-lo, ou inexplicavelmente sentir que deve segui-lo, mesmo diante de atribulações ou perigo iminente. Tal desejo gera no herói forte ansiedade frente a seu destino e ao desconhecido. O arauto representa as profundezas do inconsciente, aquilo que não pode ser visto, o lugar onde também está guardado tudo o que há de não realizado na existência.

Ao mostrar o caminho para esse lugar fantástico e assustador (lembremos que com frequência esse gesto é representado pela incursão na floresta escura)o arauto assume uma forma também assustadora, obscura, abjeta, bestial, a forma do “mal”. Ainda assim se o herói o segue, ou aceita seu desafio ou sua “deixa”, há a possibilidade de que chegue ao que para ele representa um tesouro, seja uma vida digna, o crescimento interior, e até a mudança de status na escala social.

Segundo Campbell, “ou o arauto é uma fera (como no conto de fadas), representante da fecundidade instintiva reprimida em nós, ou uma figura misteriosa – o desconhecido.”

O “chamado à aventura” nas versões de Chapeuzinho Vermelho é feito parcialmente pelo lobo, representante da “morte” (simbólica ou não), mas o mesmo é indiretamente auxiliado pela mãe, na versão em que a mesma, sem querer, diz à menina onde encontrar a resposta à sua curiosidade, ou até pela avó, que em um ensaio de “saída de cena” – a doença – abre caminho para a neta.

Mas como essa transição é representada?

Em “Fita Verde no Cabelo”, de Guimarães Rosa[vii], o único lobo que a menina encontra é a morte da avó:  – “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido!”

– “É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha…” – a avó ainda gemeu.

Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.

Gritou: – “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…”

Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.”

No conto de Guimarães, a menina não se depara com nenhum lobo no caminho, pois os lenhadores “tinham exterminado o lobo”. Avó e lobo são a representação da mesma coisa: a morte.

O game designer American McGee[viii] vai mais longe em tentar decifrar a charada de Chapeuzinho Vermelho: em sua versão em forma de aplicativo para iPad, uma anciã que faz as vezes de figura de avó para a protagonista, Akaneiro, é, na verdade, um lobisomem. Uma ideia coerente com o fato de o lobo engolir a avó e colocar-se em seu lugar em todas as versões tradicionais e também com O Conto da Avó, em que a menina encontra um lobisomem na floresta, o mesmo que posteriormente toma o lugar de sua avó. O destino de Chapeuzinho seria tomar conhecimento da morte, como um ritual de crescimento. O lobo seria a representação das primeiras “mortes” com as quais Chapeuzinho irá se deparar, até chegar a hora em que ela irá tomar o lugar da avó e deixar-se ser devorada pelo Grande Lobo Final, não sem antes, tornar-se, ela própria por um certo tempo, o lobo de sua descendência. Como disse sabiamente a psicanalista Diana Corso[ix], em seu excelente artigo sobre o livro e o filme “Jogos Vorazes”: “O adulto é o lobo do jovem”.


[ii] Le Petit Chaperon Rouge

[iii] “The Path of Needles or Pins” : Little Red Riding Hood http://www.endicott-studio.com/rdrm/rrPathNeedles.html

[iv] FRAZER, Sir James. The Corn-Spirit as a Wolf or a Dog. In The Golden Bough. New York, Dover Publications, 2002.

[v] CAMPBELL, Joseph. The Call to Adventure. In The Hero with A Thousand Faces. Fontana Press. s/d.

[vi] “Typical of the circumstances of the call are the dark forest, the great tree, the babbling spring, and the loathy, underestimated appearance of the carrier of the power of destiny.” (p.p 51,52)

[vii]  ROSA, João Guimarães. Fita Verde no Cabelo: nova velha história. Nova Fronteira, 1992.

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